Hoje eu forcei a inspiração a dar as caras, porque quero contar para vocês dessa semana foi muito importante na minha vida belga: deixei de ser prisioneira em semi-aberto! Calma! Vou explicar. É que quando cheguei aqui, dei entrada nos meus documentos e eles seriam analisados em Bruxelas. Lá, eles têm seis meses para resolver se sou digna de ficar aqui tomando a cerveja e comendo chocolate deles, ou se mandam de volta para o Brasil.

Por motivos que eu desconheço, eles me deram um papelzinho laranja que seria meu documento daqui durante esse período, e me mantiveram em semi-aberto: só podia dar voltinhas dentro da Bélgica. E como era temporada de caça aos terroristas na Europa (e principalmente na Bélgica), com mais fiscalização nas fronteiras e tudo mais, eu nem pensei em arriscar. A dor de cabeça poderia ter sido sem fim caso alguém me parasse e eu só tivesse o papel feiozinho para mostrar. Aliás, o fim poderia ser eu, de volta no Brasil. Fica a dica para que pessoas nessa situação não resolvam tentar a sorte!

Bem, além de brindar porque agora tenho uma identidade belga e posso ir pra onde eu bem entender e – o mais importante – voltar, na terça também completei setes meses nessas terras. Esses dois acontecimentos me fizeram olhar para trás e pensar em como tudo tem sido até então. Eu gostaria de dividir com vocês as minhas reflexão sobre o processo de adaptação, a minha experiência, coisas que eu gostaria de ter feito diferente e que se eutivesse feito, poderiam ter suavizado o processo.

Lembrando que é uma reflexão sobre a minha experiência: eu, Mariana, que vim para cá porque meu marido holandês veio estudar aqui.

  • Imigrar não é fazer intercâmbio

Eu já havia feito intercâmbio duas vezes. Nunca fui de arrancar os cabelos de ansiedade ou preocupação com essas coisas. E dessa vez também não podia ter sido diferente. Eu não me achava mais amadora no assunto. Não morava mais com a mãezinha há algum tempo. Tá tranquilo! Let’s go!

Em um intercâmbio, no entanto, você recebe muito suporte, tem um plano eum objetivo, faz muitos amiguinhos que estão na mesma situação que você e pode ir embora quando quiser. Não é a mesma coisa quando você muda para um país para começar a sua vida do zero e sem plano nenhum. Claro que ninguém está me prendendo aqui e também posso ir embora se quiser, mas acredito que o Sr. Meumarido não ficaria feliz.

É uma situação bem diferente.

  • Recomeçar a vida do zero

Eu estava super empolgada pra mudar o rumo da minha vida. Achar um emprego que ajudasse a mudar o mundo, sei lá. Essas ideias românticas e não realistas que a gente tem quando não pensa direito.

Na verdade eu sabia que teria que dar milhões de passos para trás antes de chegar perto de fazer qualquer coisa parecida com o meu emprego dos sonhos. Bem, eu sabia que estava basicamente abandonando minha profissão e rasgando meu recém-adquirido diploma da pós. Ainda assim, eu estava animada para começar uma nova aventura.

Mas a teoria é muito diferente da prática. A animação não sobreviveu muito tempo. O idioma é uma barreira muito maior do que eu imaginei que fosse. Eu não demorei muito a entender que eu não ia conseguir emprego nenhum a menos que eu aprendesse o holandês – para ontem.

  • As expectativas

Eis a vilã maior da minha história: a expectativa. Antes de vir para cá, euestava muito positiva e achando que tudo ia ser muito legal. Em máximo três meses já vou estar trabalhando, achava eu ingenuamente. Eu não fiz meu dever de casa direito.

Eu achava que Leuven era uma cidade internacional. E é, mas não é. Vou explicar melhor: ainda que praticamente todo mundo fale inglês, e a cidade esteja cheia de estrangeiros 1) na universidade, 2) na Imec, 3) na Inbev, a vida acontece em holandês. A menos que você seja parte de uma dessas três categorias, você vai precisar de holandês para conseguir um emprego, por exemplo. E é recomendado que até mesmo essas pessoas consigam começar conversinhas em holandês, e só depois mudar para o inglês, se quiserem receber um tratamento seco porém levemente afável dos belgas.

Ah, e os belgas! Não sei por que, mas eu tinha decidido associá-los aos holandeses na minha cabeça. Ok, provavelmente por causa do idioma e da proximidade geográfica. Mas vou deixar bem claro para vocês, porque não era claro para mim: belgas não são parecidos com brasileiros, americanos, canadenses ou holandeses! Você pode pensar, ah, mas claro que todo é diferente! Sim. Mas os belgas são ainda mais diferentões. São educados, mas não muito amigáveis. Eles são mais fechados do que seria o padrão europeu normal – que já é complicado para nós. Minha primeira professora de holandês me disse no meu segundo mês aqui que eu não faria amigos belgas – nem por nada, só porque é difícil mesmo. Foi muito encorajador! Sóquenãomesmo.

  • Paciência de monge

Odeio que me digam que tem que ter paciência para que algo aconteça. O que meu cérebro entende: senta e espera, meu bem. Toma um chazinho enquanto isso. Odeio! Aceitar que eu teria que aprender holandês de verdade e o mais rápido possível foi provavelmente meu momento mais dolorido aqui. Claro que esse conceito já me era conhecido, o problema foi fazer com que isso acontecesse. Eu queria começar o nível dois do holandês logo e fazer trabalho voluntário para ter mais contato com o idioma. O que soa muito plausível e relativamente simples, certo? Mas não foi.

Eu já falei sobre a Babélgica para vocês. Imagine um país que tem seis níveis diferentes de governo. Lidar com qualquer coisa relacionada à burocracia aqui pode ser um verdadeiro pesadelo. Parece que as leis aqui mudam todo mês – ou pelo menos toda vez que você precisar resolver algo na prefeitura. Eu quase acho que as pessoas da prefeitura inventam umas leis novas quando dá na telha deles. E aí você tem que ser muito espertinho para não deixar que elas te façam de bobo. Também suspeito que se você já chegar dizendo oi em inglês, eles são legalmente autorizados a te fazer sofrer. Lembrando: estamos falando da repartição que trata de assuntos de gente gringa, e que muitas vezes acabaram de chegar aqui.

Para não fugir dos padrões belgas de complicar tudo o máximo possível, começar o tal do segundo nível do meu curso envolvia três órgãos diferentes. Minha escola, a escola nova e o Huis van Nederlands, que é um órgão do governo. O que eu fiz? Depois de brigar por aí, chorar e sentir o ódio tomar conta do meu coração, fui fazer o curso da universidade. Foi muito legal: cheguei, me matriculei, paguei e fui direto para a sala de aula. E tudo no mesmo dia!

Houve muitos outros episódios de maior e/ou menor importância. Até já contei para vocês do dia que fui ao Inburgering. Eu achava no fundo raso do meu coração que a Bélgica tinha uma boneca de vodu minha e estava me testando até eu pedir para sair. Foi uma fase bem difícil. E nem o dia que euparei para pensar e notei que eu só estava aqui há três meses e que só podia estar louca de querer tanto em tão pouco tempo me serviu de consolo. Vejam vocês, eu quero tudo para ontem mesmo, uh!

Eu não sei bem quando foi, mas eu me acalmei. Junto com esse curso de holandês, comecei também o programa de integração (vou falar dele em outro post). Acho que esses dois cursos intensivos somados e ocupando muitas das minhas horas dedicadas a pensar na morte da bezerra ajudaram bastante. Não ter que lidar mais com nada burocrático também pode ter tido uma grande participação nessa história.

Como eu disse antes, eu ainda não estou adaptada. Esse processo é longoe parece uma montanha-russa. Podemos dizer que antes eu estava na montanha-russa mais hardcore da Disney (que eu nunca fui, mas achei válida a comparação), com mil viradas, que você fica de cabeça para baixo quase o tempo todo, e agora estou em um daqueles parques sem graça, que só dá umas viradinhas bem de vez em quando – uma vez por semana quem sabe.

Parece que a Bélgica resolveu jogar minha boneca de vodu fora e agora até me deu uma identidade! Acho que quem sabe a gente fique mais amiga. E eu estou até mais perto de quase falar holandês, meu povo! Estou fazendo a minha parte, e quando termino, sento e faço meu exercício de tomar chá.

 

Mariana | March 19, 2016 at 7:45 pm | Tags: adaptação, Bélgica, reflexão |