Sail Amsterdam: os holandeses e seus mistérios

Já aviso que este post contém pedaços de aula de história, mas me esforçarei para que seja digerível. E também não é sobre a terra dos chocolates e cervejas, mas sobre a dos queijos e canais – a Holanda. O que é meio inevitável, já que 1) o Sr. Meumarido é holandês, 2) nós acabaremos vindo ver os pais do Sten de vez em quando e 3) porque eu sei muito mais sobre os holandeses do que sobre os belgas!!! Justificado né?!

Esse foi desses finais de semanas que viemos visitar meus sogros. Essa foto de cima é do nosso programa de domingo, o Sail Amsterdam. Foi o último dia do evento, que começou na quarta. Essa é outra coisa que esse povo leva a sério, além das bicicletas. Eu já havia ouvido histórias e visto fotos da última edição quando estava aqui em 2013. Eu suspeitava que eles já esperavam pela edição desse ano ansiosamente desde então, mas agora eu tenho certeza.

A primeira edição do evento aconteceu em 1975. Para comemorar o aniversário de 700 anos da cidade, convidou-se uns barquinhos do mundo todo, como o da foto, para dar uma voltinha por aqui. E desde então, isso se repete a cada 5 anos. Geralmente o evento dura 4 dias, mas essa edição teve um dia extra. Meu sogro me contou, muito orgulhoso, que já foi em todas as edições!

O evento desse ano reuniu uma média de 600 navios: navios da marinha, réplicas dos navios usados para passear por aí e roubar terras de índios, botes, caiaques, barcos de passear nos canais de Amsterdam e de ir pescar. Muitos tipos! Para não sobrar apenas para a imaginação:

O evento era muito interessante pelo porte e organização. Eram muitos navios, muita gente e não vimos nenhum tipo de problema. O que me intrigou muito mais do que os navios, no entanto, é o fato de os holandeses amarem tanto esse evento! Eu, particularmente, não gosto de navio nem se for pra fazer cruzeiro. Mas achei mesmo tudo legal (esclarecendo), porque minha versão madura 2.3 é muito aberta a cultura diferentes e quer muito ser culta. Ainda assim, tive que colocar minha cabeça para pensar e tentar entender todo esse amor. Eis as minhas suspeitas:

Vamos conquistar o mundo!

Em típicos dias holandeses, com muita chuva e vento, que resolvíamos brincar de jogos de tabuleiro em família, a história era sempre a mesma: jogos de conquistar o mundo! Claro que eles sempre ganhavam né, e eu sentia aquela sensação de dejavu – tadinhos dos sul-americanos! Mas ok, era divertido até!

É compreensível que criancinhas holandesas brinquem de jogos de corrida imperialista se levarmos em conta o fato de que era exatamente isso que os ancestrais delas faziam – na vida real. Lembra nas aulas de história da Companhia (Holandesa!) das Índias Ocidentais/Orientais? Pois bem, eles brincam de navegar pelo mundo há MUITO tempo! A Indonésia, África do Sul e o Suriname pertenciam a eles, por exemplo. Até no Brasil eles já vieram se meter! Salvador ficou sobre domínio holandês por um ano e Pernambuco por vinte e quatro. Rolava até um papo de Brasil holandês no nordeste – até eles serem expulsos daqui.

Como eles acabaram com um pedacinho de terra menor que Santa Catarina eu não sei! E eles também não gostam de lembrar, então acho muito legal fazer piada sobre o assunto ;). Mencionar que Nova Iorque já foi na verdade Nova Amsterdam, e foi trocada com os ingleses pelo Suriname também é super válido!

Os holandeses e  a água

Além das batalhas ao redor do mundo por terra, os holandeses sempre tiveram que lutar com a água em seu próprio território. Uma boa parte do país fica abaixo do nível do mar, o que acabou fazendo deles experts em resolver problemas hídricos. Os lindos canais de Amsterdam, com suas casas-barco fofíssimas, foram projetados como parte dessa estratégia de evitar que tudo ficasse embaixo d`água. Eles são tão bons nisso, que foram chamados para ajudar na recuperação de Nova Orleans depois da passagem do Katrina.

Ainda que esse complexo de conquistadores do mundo não se resuma ao povo holandês, acredito que ninguém mais tenha tido tanta história com água – e barcos, consequentemente. E parace mesmo haver toda uma cultura de barcos no país (ou quem sabe só em Amsterdam)! Hoje a Oma (vó em holandês) me contou que ela e a família dela moravam em um barco no norte da Holanda. Muita gente tem um barco para passear nos canais em Amsterdam nos tão esperados dias de verão. E os turistas adoram fazer o mesmo. Ah, e morar naqueles barquinhos no canal (como aquela menina da novela das 9 de muitos anos atrás) é  bem caro!

Eu não tenho certeza se meus argumentos são suficientes para explicar porque os holandeses amam barcos e eu não, mas nós certamente tivemos um ótimo dia em família! Fomos ver os barcos de perto e depois do alto de um prédio, terminando o dia com pizza e cerveja no centro de Amsterdam! Não dá pra reclamar, né!