Hoje eu forcei a inspiração a dar as caras, porque quero contar para vocês dessa semana foi muito importante na minha vida belga: deixei de ser prisioneira em semi-aberto! Calma! Vou explicar. É que quando cheguei aqui, dei entrada nos meus documentos e eles seriam analisados em Bruxelas. Lá, eles têm seis meses para resolver se sou digna de ficar aqui tomando a cerveja e comendo chocolate deles, ou se mandam de volta para o Brasil.

Por motivos que eu desconheço, eles me deram um papelzinho laranja que seria meu documento daqui durante esse período, e me mantiveram em semi-aberto: só podia dar voltinhas dentro da Bélgica. E como era temporada de caça aos terroristas na Europa (e principalmente na Bélgica), com mais fiscalização nas fronteiras e tudo mais, eu nem pensei em arriscar. A dor de cabeça poderia ter sido sem fim caso alguém me parasse e eu só tivesse o papel feiozinho para mostrar. Aliás, o fim poderia ser eu, de volta no Brasil. Fica a dica para que pessoas nessa situação não resolvam tentar a sorte!

Bem, além de brindar porque agora tenho uma identidade belga e posso ir pra onde eu bem entender e – o mais importante – voltar, na terça também completei setes meses nessas terras. Esses dois acontecimentos me fizeram olhar para trás e pensar em como tudo tem sido até então. Eu gostaria de dividir com vocês as minhas reflexão sobre o processo de adaptação, a minha experiência, coisas que eu gostaria de ter feito diferente e que se eutivesse feito, poderiam ter suavizado o processo.

Lembrando que é uma reflexão sobre a minha experiência: eu, Mariana, que vim para cá porque meu marido holandês veio estudar aqui.

  • Imigrar não é fazer intercâmbio

Eu já havia feito intercâmbio duas vezes. Nunca fui de arrancar os cabelos de ansiedade ou preocupação com essas coisas. E dessa vez também não podia ter sido diferente. Eu não me achava mais amadora no assunto. Não morava mais com a mãezinha há algum tempo. Tá tranquilo! Let’s go!

Em um intercâmbio, no entanto, você recebe muito suporte, tem um plano eum objetivo, faz muitos amiguinhos que estão na mesma situação que você e pode ir embora quando quiser. Não é a mesma coisa quando você muda para um país para começar a sua vida do zero e sem plano nenhum. Claro que ninguém está me prendendo aqui e também posso ir embora se quiser, mas acredito que o Sr. Meumarido não ficaria feliz.

É uma situação bem diferente.

  • Recomeçar a vida do zero

Eu estava super empolgada pra mudar o rumo da minha vida. Achar um emprego que ajudasse a mudar o mundo, sei lá. Essas ideias românticas e não realistas que a gente tem quando não pensa direito.

Na verdade eu sabia que teria que dar milhões de passos para trás antes de chegar perto de fazer qualquer coisa parecida com o meu emprego dos sonhos. Bem, eu sabia que estava basicamente abandonando minha profissão e rasgando meu recém-adquirido diploma da pós. Ainda assim, eu estava animada para começar uma nova aventura.

Mas a teoria é muito diferente da prática. A animação não sobreviveu muito tempo. O idioma é uma barreira muito maior do que eu imaginei que fosse. Eu não demorei muito a entender que eu não ia conseguir emprego nenhum a menos que eu aprendesse o holandês – para ontem.

  • As expectativas

Eis a vilã maior da minha história: a expectativa. Antes de vir para cá, euestava muito positiva e achando que tudo ia ser muito legal. Em máximo três meses já vou estar trabalhando, achava eu ingenuamente. Eu não fiz meu dever de casa direito.

Eu achava que Leuven era uma cidade internacional. E é, mas não é. Vou explicar melhor: ainda que praticamente todo mundo fale inglês, e a cidade esteja cheia de estrangeiros 1) na universidade, 2) na Imec, 3) na Inbev, a vida acontece em holandês. A menos que você seja parte de uma dessas três categorias, você vai precisar de holandês para conseguir um emprego, por exemplo. E é recomendado que até mesmo essas pessoas consigam começar conversinhas em holandês, e só depois mudar para o inglês, se quiserem receber um tratamento seco porém levemente afável dos belgas.

Ah, e os belgas! Não sei por que, mas eu tinha decidido associá-los aos holandeses na minha cabeça. Ok, provavelmente por causa do idioma e da proximidade geográfica. Mas vou deixar bem claro para vocês, porque não era claro para mim: belgas não são parecidos com brasileiros, americanos, canadenses ou holandeses! Você pode pensar, ah, mas claro que todo é diferente! Sim. Mas os belgas são ainda mais diferentões. São educados, mas não muito amigáveis. Eles são mais fechados do que seria o padrão europeu normal – que já é complicado para nós. Minha primeira professora de holandês me disse no meu segundo mês aqui que eu não faria amigos belgas – nem por nada, só porque é difícil mesmo. Foi muito encorajador! Sóquenãomesmo.

  • Paciência de monge

Odeio que me digam que tem que ter paciência para que algo aconteça. O que meu cérebro entende: senta e espera, meu bem. Toma um chazinho enquanto isso. Odeio! Aceitar que eu teria que aprender holandês de verdade e o mais rápido possível foi provavelmente meu momento mais dolorido aqui. Claro que esse conceito já me era conhecido, o problema foi fazer com que isso acontecesse. Eu queria começar o nível dois do holandês logo e fazer trabalho voluntário para ter mais contato com o idioma. O que soa muito plausível e relativamente simples, certo? Mas não foi.

Eu já falei sobre a Babélgica para vocês. Imagine um país que tem seis níveis diferentes de governo. Lidar com qualquer coisa relacionada à burocracia aqui pode ser um verdadeiro pesadelo. Parece que as leis aqui mudam todo mês – ou pelo menos toda vez que você precisar resolver algo na prefeitura. Eu quase acho que as pessoas da prefeitura inventam umas leis novas quando dá na telha deles. E aí você tem que ser muito espertinho para não deixar que elas te façam de bobo. Também suspeito que se você já chegar dizendo oi em inglês, eles são legalmente autorizados a te fazer sofrer. Lembrando: estamos falando da repartição que trata de assuntos de gente gringa, e que muitas vezes acabaram de chegar aqui.

Para não fugir dos padrões belgas de complicar tudo o máximo possível, começar o tal do segundo nível do meu curso envolvia três órgãos diferentes. Minha escola, a escola nova e o Huis van Nederlands, que é um órgão do governo. O que eu fiz? Depois de brigar por aí, chorar e sentir o ódio tomar conta do meu coração, fui fazer o curso da universidade. Foi muito legal: cheguei, me matriculei, paguei e fui direto para a sala de aula. E tudo no mesmo dia!

Houve muitos outros episódios de maior e/ou menor importância. Até já contei para vocês do dia que fui ao Inburgering. Eu achava no fundo raso do meu coração que a Bélgica tinha uma boneca de vodu minha e estava me testando até eu pedir para sair. Foi uma fase bem difícil. E nem o dia que euparei para pensar e notei que eu só estava aqui há três meses e que só podia estar louca de querer tanto em tão pouco tempo me serviu de consolo. Vejam vocês, eu quero tudo para ontem mesmo, uh!

Eu não sei bem quando foi, mas eu me acalmei. Junto com esse curso de holandês, comecei também o programa de integração (vou falar dele em outro post). Acho que esses dois cursos intensivos somados e ocupando muitas das minhas horas dedicadas a pensar na morte da bezerra ajudaram bastante. Não ter que lidar mais com nada burocrático também pode ter tido uma grande participação nessa história.

Como eu disse antes, eu ainda não estou adaptada. Esse processo é longoe parece uma montanha-russa. Podemos dizer que antes eu estava na montanha-russa mais hardcore da Disney (que eu nunca fui, mas achei válida a comparação), com mil viradas, que você fica de cabeça para baixo quase o tempo todo, e agora estou em um daqueles parques sem graça, que só dá umas viradinhas bem de vez em quando – uma vez por semana quem sabe.

Parece que a Bélgica resolveu jogar minha boneca de vodu fora e agora até me deu uma identidade! Acho que quem sabe a gente fique mais amiga. E eu estou até mais perto de quase falar holandês, meu povo! Estou fazendo a minha parte, e quando termino, sento e faço meu exercício de tomar chá.

 

Mariana | March 19, 2016 at 7:45 pm | Tags: adaptação, Bélgica, reflexão |

Babélgica

Acredito que todos nós já ouvimos falar da Torre de Babel, certo? Caso não lembrem, versão resumida: a galera queria fazer uma torre para chegar até o céu, Deus não gostou da ideia e acabou com a brincadeira. Ele fez com que os povos não se entendessem mais – é, todo mundo falava a mesma língua – e espalhou geral pelo mundo. Fim.

Acho que alguns lugares deram mais sorte, com maiores concentrações de gente falando a mesma língua, e outros deram muito azar, como a Bélgica, que acabou com três idiomas em um espaço de terra muito pequeno. Como eu já contei para vocês, aqui se fala holandês, francês e alemão. Eu apelidei carinhosamente o país de Babélgica.

Os belgas tentaram lidar com essa confusão da melhor forma possível, mas acho que ainda ficou confuso. Podemos pensar que a Bélgica possui duas regiões bem distintas: Flandres e Valônia. Os Flanders ficam no norte da Bélgica e a língua oficial é o holandês. A Valônia fica ao sul e se fala francês. Além disso, o país é dividido em 10 províncias. Cinco para cada região, para ninguém ficar com ciúme.

Agora vamos complicar um pouco. Oficialmente o país tem três regiões autônomas: Flandres, Valônia e Bruxelas. Bruxelas, no entanto, fica dentro dos Flandres, e é a capital dessa região e do país. Se levarmos em conta a localização, seria certo assumir que lá se fala holandês, mas Bruxelas é bilíngue. E para complicar mais um pouquinho, 70% dos moradores falam francês. Prometo contar pra vocês quando eu descobrir o motivo desse nonsense.

E o alemão?! Sim, perceba que ninguém dá muita bola para o alemão. O idioma só é falado em uma província da Valônia, Liège. Parece que os pobres coitados não foram vítimas da história da Torre de Babel, mas da Segunda Guerra. A Alemanha teve que ceder um pedacinho das suas terras para a Bélgica, mas o povo não quis ceder no idioma.

Recapitulando: o país tem três regiões autônomas – Flandres, Valônia e Bruxelas. Elas são responsáveis por questões administrativas e econômicas. Porém, a bagunça variedade de idiomas exigiu que os grupos linguísticos também fossem autônomos. Eles são chamados de Comunidades e lidam com questões culturais e educacionais.

Quando a Bélgica se tornou independente (1830), o único idioma oficial era o francês. O holandês só foi reconhecido em 1898. Adivinhe de quem foi a ideia de criar as Comunidades linguísticas!? Dos flamengos (Flandres/holandês), claro! Então, depois de tanta sofrência, eu quase entendo que o povo daqui queira manter o seu idioma a todo custo. Na prática, isso explica porque eu senti resistência das pessoas a falar inglês comigo. Já entendi o recado, tô estudando a língua de vocês!

Outro fato que não chega a ser uma surpresa é a síndrome deles de “república Juliana”. Eu acho uma besteira sem fim a história do “sul é o meu país”, mas aqui até que eles têm argumentos justos. Culturalmente e linguisticamente falando, faria muito sentido que os Flandres pertencessem à Holanda e a Valônia à França – mas os belgas não gostam dos holandeses, ops! Mass, como eles não querem pertencer a nenhum outro país e eu nenhuma das duas regiões têm tamanho para ser país sozinho, acho bom eles sossegarem. Pelo menos parece que os jovens não foram contagiados pelo separatismo ainda.

Quanta informação para um país que os brasileiros quase nem lembram que existe, uh! Prometo que da próxima vez irei falar de algum assunto bem leve e de fácil absorção cerebral. Tipo.. cerveja! 😛

O jeitinho belga: como algumas coisas funcionam por aqui

Andei sumida daqui por um tempo, mas estou de volta! Durante esse tempo de sumiço estive procurando ativamente coisas para contar para vocês, mas nem sempre é fácil – ou a inspiração me visita. Parece que hoje Marte estava de bobeira na lua de escorpião e finalmente vou compartilhar com vocês alguns fatos que são bem diferentes do que estamos acostumados no Brasil! Tenham em mente que minhas impressões são algo muito pessoal e que se limitam à minha cidade e à minha vida despovoada de belgas – que poderiam ser uma fonte de posts inesgotável.

Sacolas de lixo

Duas coisas que eram quase certas na vida: você vai voltar do mercado cheio de sacolas de plástico e que essas sacolas serão usadas nas suas lixeiras. Aí inventaram a palavra sustentável e é super tendência ter a sua sacola eco-friendly pra ir ao mercado. Acho lindo – menos quando eu esquecia a minha sacola. Aqui, além de ter que levar meu recém-adquirido carrinho-de-vó-de-fazer-compras-na-feira, tenho que comprar as sacolas de lixo. Regras da prefeitura. E não é nada barato! Pagamos 22,50 euros por 10 sacolas grandes. Isso um negócio muito visionário, porque cada tipo de lixo precisa de uma sacola de cor diferente. E claro que há variações de tamanhos: sacola grande, pequena, média. Ótimo pra arrecadar imposto além do imposto, uh! A ideia também é super sustentável: quem produz mais lixo, tem que pagar mais. Ou faz contrabando de lixo pra Holanda sempre que possível, onde isso não existe – nosso caso.

Registro na prefeitura e a visita da polícia

Quando além se muda aqui na Bélgica, mesmo se for um belga mudando de cidade, é necessário se registrar na prefeitura. Isso quer dizer, basicamente, que você tem que ir lá levar seus documentos e dizer “Oi, tô morando aqui agora!”. Você já precisa ter um teto, fornecer o endereço, e um policial vai bater na sua porta qualquer dia. Eles querem saber se você mora mesmo onde você diz que mora. Essa visita pode levar até 4 semanas, e você nunca sabe quando eles irão aparecer. O que podemos tirar dessa história? Enquanto policiais rezam para não morrer todos os dias quando saem para trabalhar no Brasil, aqui eles pegam suas bikes e saem para checar a decoração da casa da galera! Tão europeia essa coisa de ter uma taxa de criminalidade insignificante!

Night bus

No final de semana meus sogros vieram nos visitar e no sábado à noite fomos tomar uma cervejinha no centro. Como não tínhamos bikes suficientes, e o povo europeu não bebe e dirige nunca (o que eu acho louvável), fomos de ônibus. Saímos umas 9:30 e voltamos um pouco depois da meia noite. Quando fomos pagar a passagem, o motorista (é, cobrador não existe) disse que era grátis. Ahnnnn?! Foi aí que descobrimos que o ônibus nas sextas e sábados das 10 da noite até 2 da manhã é 0800!!! Acredito que seja um incentivo à economia local (mais dinheiro para cerveja!) e pra compensar a história das sacolas. Gente esperta!

Cartões de crédito

Isso vai muito contra toda a modernidade do “primeiro mundo”, mas não parece ser qualquer lugar que aceita cartões de crédito por aqui. Gente, até no Brasil todo mundo tem uns três cartões e pode usá-los até para comprar bikini na praia! Aqui a coisa ganha uma dimensão ainda mais bizarra, porque Leuven é uma cidade cheia de estudantes internacionais. Cheia significa que a população da cidade triplica durante o ano letivo. Leuven é a cidade universitária do país. E como que essa gente só aceita cartão de débito de banco belga?! Vou ilustrar. Quando fui pagar meu curso de holandês (obviamente não sou daqui), não aceitaram cartão de débito da Holanda. Na livraria que eu e o Sten tivemos que comprar nossos livros do curso/universidade, mesma coisa. Retrocesso!

Mensalidade nas universidades

Ah, sobre as universidades! A mensalidade aqui é paga por ano, e não por mês. O curso de graduação custa quase 900 euros por ano. Ah, e se você estudar Direito? A mesma coisa. Biologia? Igual. Todos os cursos custam o mesmo valor – sem exceção! O que é uma coisa muito confusa se pensarmos sobre a organização da sociedade. Aquela velha equação que diz que pagar 4000 reais por mês automaticamente te faz (se sentir) melhor que todo mundo não funciona mais! O que é uma vergonha. Completa. Vou descobrir se existe pelo menos uma área VIP na cafeteria que você possa pagar para não ser igual todo o resto. Deve existir né!

E aí, o que vocês acharam mais interessante? Esquisito?

O que vocês acham que daria certo/jamais funcionaria no Brasil?!

You parles holandês? Nee, mas preciso!

Hoje dei um passo muito importante na minha nova vida: me inscrevi no curso de holandês! Eee! Na verdade, importante para o resto da minha vida, já que tá ficando difícil de enrolar meu marido holandês que fala português. Ainda mais quando até a minha sogra fez curso de português! A coisa tá feia pro meu lado.

Além disso, estou achando complicado viver aqui só com o inglês. Eu só havia morado em países de língua inglesa, então eu não sabia como era viver em um universo linguístico paralelo. Ainda que Leuven esteja na parte da Bélgica que não fala francês, eles parecem ter herdado aquela característica dos franceses que todos amamos: só querem falar a língua deles.

Listei para vocês as situações mais chatas que eu tenho passado por aqui. E nem tem pior de todas ou algo assim, porque tudo é igualmente chato.

Supermercado

Supermercado em país novo é uma coisa mágica! Um mundo de coisas novas a serem desvendadas (e transformadas em 10kg a mais)! Porém, se eu quiser algo além do descomplicado chocolate, por exemplo, a coisa fica mais difícil. Como se compra shampoo?! Produtos de limpeza?! Todas as embalagens aqui são em holandês ou francês. Chega até a ficar emocionada quando encontro algo em inglês.

Eventos sociais

É meio chato ser o motivo de todo mundo na roda ter que falar inglês. Sim, muitas vezes as pessoas são fofas assim e fazem isso por você! E às vezes elas estão dispostas a fazer, mas esquecem, e aí lembram, esquecem de novo, e assim sucessivamente.

O que eu já percebi é que as pessoas em Leuven não estão acostumadas a falar inglês – ou não querem e pronto. Quando elas se dispõem a fazer isso por mim, então, elas merecem um super abraço (se elas gostassem de abraçar, quer dizer) porque eu sei que é um esforço para elas.

E aí me resta me transportar para o meu universo paralelo quando não rola essa camaradagem.

 Antipatia involuntária

De vez em quando, em momentos que dou essa desligada, pode ser que eu não pareça a pessoa mais simpática da terra. Mas não é (bem) minha culpa. Gente, eu não entendo nada que as pessoas falam! Quando estamos na rua resolvendo coisas, as pessoas falam com o Sten e eu me tele transporto para Nárnia ou whatever, porque ouvir não ia fazer a menor diferença. Em minha defesa, eu dou um sorrisinho sem dentes e digo oi. Acho que tá bom. Futuramente eles serão agraciados com a minha versão fofa em holandês.

Emprego

Sério, acho que nem o Mc Donalds me contrataria. É comum aqui ter que falar pelo menos holandês ou francês, preferencialmente os dois. E dar aula de inglês aqui não rola, 1) porque a Europa é cheia de nativos da língua inglesa e os empregos são deles e 2) porque todo mundo sabe inglês aqui, ainda que os queridos não pareçam muito inclinados a usá-lo. Que opção me resta?! Acho que só aprender holandês mesmo, uh.

Independência

Eu praticamente dependo do Sten pra tudo: o que diz essa promoção? Isso é pra cabelo liso? O que tá escrito aqui? O que ela disse? É terrível! Vai ser tão lindo o dia que eu conseguir ir no mercado e escolher meu shampoo sem ajuda, ler esses raios de páginas de internet que só tem opção holandês ou francês, e bater papo com as pessoas na rua (se elas fossem de bater papo)!

Porém, na verdade as coisas têm sido fáceis porque ainda não saí de casa sem o Sten. Mas isso está para acabar, e serei obrigada a me virar sozinha. Eu sei que quando não tiverem opção, as pessoas na rua terão que ser legais e falar inglês comigo – ou não. E eu, terei que fazer minha parte e aprender a língua delas, pra ontem.

Acho que muita gente que muda de país passa por certos sufocos de natureza linguística. Poderia definitivamente ser muito pior se não tivesse o inglês para ajudar.

O que vocês acham?! Qual dessas situações seria a pior para vocês?

Sail Amsterdam: os holandeses e seus mistérios

Já aviso que este post contém pedaços de aula de história, mas me esforçarei para que seja digerível. E também não é sobre a terra dos chocolates e cervejas, mas sobre a dos queijos e canais – a Holanda. O que é meio inevitável, já que 1) o Sr. Meumarido é holandês, 2) nós acabaremos vindo ver os pais do Sten de vez em quando e 3) porque eu sei muito mais sobre os holandeses do que sobre os belgas!!! Justificado né?!

Esse foi desses finais de semanas que viemos visitar meus sogros. Essa foto de cima é do nosso programa de domingo, o Sail Amsterdam. Foi o último dia do evento, que começou na quarta. Essa é outra coisa que esse povo leva a sério, além das bicicletas. Eu já havia ouvido histórias e visto fotos da última edição quando estava aqui em 2013. Eu suspeitava que eles já esperavam pela edição desse ano ansiosamente desde então, mas agora eu tenho certeza.

A primeira edição do evento aconteceu em 1975. Para comemorar o aniversário de 700 anos da cidade, convidou-se uns barquinhos do mundo todo, como o da foto, para dar uma voltinha por aqui. E desde então, isso se repete a cada 5 anos. Geralmente o evento dura 4 dias, mas essa edição teve um dia extra. Meu sogro me contou, muito orgulhoso, que já foi em todas as edições!

O evento desse ano reuniu uma média de 600 navios: navios da marinha, réplicas dos navios usados para passear por aí e roubar terras de índios, botes, caiaques, barcos de passear nos canais de Amsterdam e de ir pescar. Muitos tipos! Para não sobrar apenas para a imaginação:

O evento era muito interessante pelo porte e organização. Eram muitos navios, muita gente e não vimos nenhum tipo de problema. O que me intrigou muito mais do que os navios, no entanto, é o fato de os holandeses amarem tanto esse evento! Eu, particularmente, não gosto de navio nem se for pra fazer cruzeiro. Mas achei mesmo tudo legal (esclarecendo), porque minha versão madura 2.3 é muito aberta a cultura diferentes e quer muito ser culta. Ainda assim, tive que colocar minha cabeça para pensar e tentar entender todo esse amor. Eis as minhas suspeitas:

Vamos conquistar o mundo!

Em típicos dias holandeses, com muita chuva e vento, que resolvíamos brincar de jogos de tabuleiro em família, a história era sempre a mesma: jogos de conquistar o mundo! Claro que eles sempre ganhavam né, e eu sentia aquela sensação de dejavu – tadinhos dos sul-americanos! Mas ok, era divertido até!

É compreensível que criancinhas holandesas brinquem de jogos de corrida imperialista se levarmos em conta o fato de que era exatamente isso que os ancestrais delas faziam – na vida real. Lembra nas aulas de história da Companhia (Holandesa!) das Índias Ocidentais/Orientais? Pois bem, eles brincam de navegar pelo mundo há MUITO tempo! A Indonésia, África do Sul e o Suriname pertenciam a eles, por exemplo. Até no Brasil eles já vieram se meter! Salvador ficou sobre domínio holandês por um ano e Pernambuco por vinte e quatro. Rolava até um papo de Brasil holandês no nordeste – até eles serem expulsos daqui.

Como eles acabaram com um pedacinho de terra menor que Santa Catarina eu não sei! E eles também não gostam de lembrar, então acho muito legal fazer piada sobre o assunto ;). Mencionar que Nova Iorque já foi na verdade Nova Amsterdam, e foi trocada com os ingleses pelo Suriname também é super válido!

Os holandeses e  a água

Além das batalhas ao redor do mundo por terra, os holandeses sempre tiveram que lutar com a água em seu próprio território. Uma boa parte do país fica abaixo do nível do mar, o que acabou fazendo deles experts em resolver problemas hídricos. Os lindos canais de Amsterdam, com suas casas-barco fofíssimas, foram projetados como parte dessa estratégia de evitar que tudo ficasse embaixo d`água. Eles são tão bons nisso, que foram chamados para ajudar na recuperação de Nova Orleans depois da passagem do Katrina.

Ainda que esse complexo de conquistadores do mundo não se resuma ao povo holandês, acredito que ninguém mais tenha tido tanta história com água – e barcos, consequentemente. E parace mesmo haver toda uma cultura de barcos no país (ou quem sabe só em Amsterdam)! Hoje a Oma (vó em holandês) me contou que ela e a família dela moravam em um barco no norte da Holanda. Muita gente tem um barco para passear nos canais em Amsterdam nos tão esperados dias de verão. E os turistas adoram fazer o mesmo. Ah, e morar naqueles barquinhos no canal (como aquela menina da novela das 9 de muitos anos atrás) é  bem caro!

Eu não tenho certeza se meus argumentos são suficientes para explicar porque os holandeses amam barcos e eu não, mas nós certamente tivemos um ótimo dia em família! Fomos ver os barcos de perto e depois do alto de um prédio, terminando o dia com pizza e cerveja no centro de Amsterdam! Não dá pra reclamar, né!

Esqueça tudo o que você sabe sobre bicicletas

Oi, gente! Já me encontro em terras europeias! Depois de um voo bem cansativo e estressante (daria um post, mas só pensar me irrito) e um final de semana na casa da sogra na Holanda, viemos para o nosso “lar, doce lar” na segunda. Hoje eu vou começar a contar pra vocês das minhas impressões daqui, e a primeira delas não podia ser outra: as bicicletas!

Na verdade essa história de bicicleta já começou naquela vez que passei um tempo na Holanda. Felizmente, não andei muito de bicicleta lá. E não consegui entender porque as pessoas optam por esse meio de transporte em um país que tem um clima tão terrível – muito vento e chuva frequente. Ok, o país não tem morros, mas ainda assim.

Embora eu more na Bélgica, meu marido continua sendo holandês e junto com a mudança vieram duas bicicletas, claro. Suspeito agora que isso não seja só coisa de holandês, no entanto. Todo mundo anda de bicicleta aqui também! Tenho três hipóteses: 1) isso é coisa de falante de holandês, 2) moramos em uma cidade universitária, e esses são os anos mais pobres das nossas vidas, bicicleta é o de transporte mais barato, então voilá, 3) talvez isso seja coisa de europeus em geral?!

Eu não sei vocês, mas eu adorava bicicleta quando eu tinha uns.. 10 anos?! E eu dava a volta no quarteirão, andava na pracinha, ia à casa da minha amiga que ficava à 10min da minha. Era super divertido! Mas aqui não é bem assim, eu notei.

No nosso primeiro dia aqui fomos ao centro da cidade de bicicleta. E eu sei que o meu marido fofo exalava sinais de achar graça de mim, procurar paciência e se esforçar pra me manter viva. Aqui o negócio parece ser mais sério. O Sten falava de bicicleta como se fosse um carro: tem que dar sinal com a mão pra virar e diminuir a marcha quando estiver parando (?!?!). Ele sobe na bicicleta com ela já andando, fica se exibindo mandando mensagem no celular enquanto pelada e nunca parece que tá morrendo, tipo eu.  Um saco. E eu sei que essa gente adora reclamar dos turistas de bicicleta, que supostamente atrapalham o trânsito, tipo eu.

Pois bem, o Sten disse que eu sou um perigo de bicicleta! Como assim né?! Ok, eu sempre tive medo de atravessar, andando, ruas super movimentadas que não tivessem o semáforo de pedestres – mesmo em Tubarão. E eu nunca quis andar de bicicleta no Rio 1) porque eu tenho medo de morrer e 2) porque eu não gosto de bicicletas. Então tá, podemos concluir que eu não sou uma ciclista das mais espertas, mas onde que tinha autoescola de bicicleta que a minha mãe não quis me matricular, Jesus?!

Ontem a gente estava tomando uma cervejinha no centro e passou um guri quase voando, e ele estava de UNICICLO! Eles devem ter alguma uma matéria na escola, tipo Andar de Bicicleta III, só para pessoas de QI acima do normal. Sério, é o cúmulo! Também descobri que tem jeitos diferentes – e bicicletas diferentes – para meninos e para meninas subirem na bike. Uh?! E que as bicicletas são como tesouros de família, passados de pai para filho. A do Sten, por exemplo, era do vô dele. É um universo esquisito que ninguém me disse que existia.

Mas voltando ao meu drama pessoal, se levarmos em conta as evidências, eis os possíveis futuros cenários dessa minha saga:

  1. Vou morrer atropelada quando estiver andando de bicicleta um dia desses.
  2. Vou fazer alguém ser atropelado por causa de alguma coisa “de turista burra” que vou fazer.
  3. Um belga bravo vai brigar comigo e me bater por causa dessas coisas de “turista burra que só atrapalha o trânsito, blablabla”
  4. Vou ter que aceitar meu triste destino e dar sinal com a mão pra virar, blablabla.
  5. Vou ficar com pernas bonitas!

Em que opção vocês votam? Espero que qualquer uma delas venha acompanhada do numero 5. É o mínimo que eu mereço, afinal de contas!

Aposto que teremos mais capítulos sobre a minha novela com as bicicletas. Fiquem ligados!

“Mas por que Leuven?!”

Olá, povo! Para inaugurar o blog resolvi falar sobre os motivos que nos fizeram escolher Leuven, a cidade que moraremos. Eu conheci a Bélgica e algumas das suas cidades fofas de nome difícil quando passei um tempo na Holanda e gostei muito. Foi frio, mas ainda assim eu gostei. A Bélgica é um país muito charmoso, com cara de conto de fadas.

No entanto, Leuven não está na lista dessas cidades que visitamos. Não, eu nunca fui lá. Embora isso seja um pouco de maluquice, eu acho que os argumentos que nos levaram a escolher a cidade são praticamente sólidos! O que vocês acham?!

Universidade

A razão número 1 de termos optado por Leuven foi porque o Sten decidiu estudar lá, na Universidade Católica de Leuven. Pesquisas por aí me disseram que essa é a universidade católica mais antiga do mundo. Além de a universidade ser ótima e ter o curso que ele quer, eles falam holandês! Ok, mas nada disso foi o que me convenceu necessariamente.

Idioma

A Bélgica tem três línguas oficiais: francês, flamengo e alemão (Sten diz que eu inventei esse último). Os idiomas são mais ou menos falados dependendo da região e da cidade. Por exemplo: em Leuven fala-se flamengo, em Bruxelas fala-se francês. Um pesadelo, uh! O lado positivo, porém, é que o flamengo está para o holandês assim como o português de Portugal está para o nosso português! Ou quase isso. As duas línguas são muito parecidas gramaticalmente (ou iguais?!), com variação no sotaque e em algumas palavras. Como eu teria que aprender o holandês um dia (tipo, logo), vou poder unir o útil ao agradável, já que moraremos em uma cidade que fala holandês/flamengo. Até que isso aconteça, supostamente todo mundo também fala inglês lá. Thank God!

idiomas

Na região azul fala-se flamengo, na begezinha, francês e na lilás alemão. A região de Bruxelas é bilíngue.

Localização

Leuven fica muito perto de Bruxelas, 20 min de trem. Ouvimos dizer que a cidade pode ficar meio deserta na época das férias, então poderíamos sempre dar uma voltinha em Bruxelas – a cidade grande – para não morrermos de tédio. Bruxelas também é uma cidade muito importante na Europa, politicamente falando. Muitas organizações internacionais têm sede na cidade, que é a considerada também a capital da União Europeia. O único (grande) problema é essa história de eles falarem mais francês lá, mas nem tudo é perfeito.                                mapa

Morar em Leuven também será ótimo porque estaremos perto dos pais do Sten. Sáo apenas  2h e meia de carro para chegar em Amsterdam! Um europeu provavelmente discordaria da parte do “perto”, no entanto. Sejamos compreensivos, já que eles moram em um continente que é do tamanho do Brasil! Tudo na vida depende das referências, certo?
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Arquitetura

A cidade é mui fofa! Tem uma igreja grande e bonita em uma praça, e outra praça com arquitetura bonita e muitos bares. Parece que é nessa praça que a vida noturna (seja lá o que isso signifique) da cidade acontece. Na verdade, tudo o que eu sei é o que google maps me mostrou e que qualquer um que olhe poderia saber. Quando eu estiver lá e souber detalhes, conto direito para vocês.

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Chocolate & cerveja

Deixei o melhor para o final! Claro que morar na Bélgica me deixou feliz quando pensei em todo o chocolate e cerveja de qualidade que teríamos acesso por um preço decente! Também penso que terei que achar um esporte que eu goste na marra, mas cada coisa no seu tempo. Leuven é a capital da cerveja na Bélgica! o/ A cidade tem muitas cervejarias e é a casa da Stella Artois. Chato, uh?!
chocobeer

Acho que sobreviveremos!