You parles holandês? Nee, mas preciso!

Hoje dei um passo muito importante na minha nova vida: me inscrevi no curso de holandês! Eee! Na verdade, importante para o resto da minha vida, já que tá ficando difícil de enrolar meu marido holandês que fala português. Ainda mais quando até a minha sogra fez curso de português! A coisa tá feia pro meu lado.

Além disso, estou achando complicado viver aqui só com o inglês. Eu só havia morado em países de língua inglesa, então eu não sabia como era viver em um universo linguístico paralelo. Ainda que Leuven esteja na parte da Bélgica que não fala francês, eles parecem ter herdado aquela característica dos franceses que todos amamos: só querem falar a língua deles.

Listei para vocês as situações mais chatas que eu tenho passado por aqui. E nem tem pior de todas ou algo assim, porque tudo é igualmente chato.

Supermercado

Supermercado em país novo é uma coisa mágica! Um mundo de coisas novas a serem desvendadas (e transformadas em 10kg a mais)! Porém, se eu quiser algo além do descomplicado chocolate, por exemplo, a coisa fica mais difícil. Como se compra shampoo?! Produtos de limpeza?! Todas as embalagens aqui são em holandês ou francês. Chega até a ficar emocionada quando encontro algo em inglês.

Eventos sociais

É meio chato ser o motivo de todo mundo na roda ter que falar inglês. Sim, muitas vezes as pessoas são fofas assim e fazem isso por você! E às vezes elas estão dispostas a fazer, mas esquecem, e aí lembram, esquecem de novo, e assim sucessivamente.

O que eu já percebi é que as pessoas em Leuven não estão acostumadas a falar inglês – ou não querem e pronto. Quando elas se dispõem a fazer isso por mim, então, elas merecem um super abraço (se elas gostassem de abraçar, quer dizer) porque eu sei que é um esforço para elas.

E aí me resta me transportar para o meu universo paralelo quando não rola essa camaradagem.

 Antipatia involuntária

De vez em quando, em momentos que dou essa desligada, pode ser que eu não pareça a pessoa mais simpática da terra. Mas não é (bem) minha culpa. Gente, eu não entendo nada que as pessoas falam! Quando estamos na rua resolvendo coisas, as pessoas falam com o Sten e eu me tele transporto para Nárnia ou whatever, porque ouvir não ia fazer a menor diferença. Em minha defesa, eu dou um sorrisinho sem dentes e digo oi. Acho que tá bom. Futuramente eles serão agraciados com a minha versão fofa em holandês.

Emprego

Sério, acho que nem o Mc Donalds me contrataria. É comum aqui ter que falar pelo menos holandês ou francês, preferencialmente os dois. E dar aula de inglês aqui não rola, 1) porque a Europa é cheia de nativos da língua inglesa e os empregos são deles e 2) porque todo mundo sabe inglês aqui, ainda que os queridos não pareçam muito inclinados a usá-lo. Que opção me resta?! Acho que só aprender holandês mesmo, uh.

Independência

Eu praticamente dependo do Sten pra tudo: o que diz essa promoção? Isso é pra cabelo liso? O que tá escrito aqui? O que ela disse? É terrível! Vai ser tão lindo o dia que eu conseguir ir no mercado e escolher meu shampoo sem ajuda, ler esses raios de páginas de internet que só tem opção holandês ou francês, e bater papo com as pessoas na rua (se elas fossem de bater papo)!

Porém, na verdade as coisas têm sido fáceis porque ainda não saí de casa sem o Sten. Mas isso está para acabar, e serei obrigada a me virar sozinha. Eu sei que quando não tiverem opção, as pessoas na rua terão que ser legais e falar inglês comigo – ou não. E eu, terei que fazer minha parte e aprender a língua delas, pra ontem.

Acho que muita gente que muda de país passa por certos sufocos de natureza linguística. Poderia definitivamente ser muito pior se não tivesse o inglês para ajudar.

O que vocês acham?! Qual dessas situações seria a pior para vocês?

Sail Amsterdam: os holandeses e seus mistérios

Já aviso que este post contém pedaços de aula de história, mas me esforçarei para que seja digerível. E também não é sobre a terra dos chocolates e cervejas, mas sobre a dos queijos e canais – a Holanda. O que é meio inevitável, já que 1) o Sr. Meumarido é holandês, 2) nós acabaremos vindo ver os pais do Sten de vez em quando e 3) porque eu sei muito mais sobre os holandeses do que sobre os belgas!!! Justificado né?!

Esse foi desses finais de semanas que viemos visitar meus sogros. Essa foto de cima é do nosso programa de domingo, o Sail Amsterdam. Foi o último dia do evento, que começou na quarta. Essa é outra coisa que esse povo leva a sério, além das bicicletas. Eu já havia ouvido histórias e visto fotos da última edição quando estava aqui em 2013. Eu suspeitava que eles já esperavam pela edição desse ano ansiosamente desde então, mas agora eu tenho certeza.

A primeira edição do evento aconteceu em 1975. Para comemorar o aniversário de 700 anos da cidade, convidou-se uns barquinhos do mundo todo, como o da foto, para dar uma voltinha por aqui. E desde então, isso se repete a cada 5 anos. Geralmente o evento dura 4 dias, mas essa edição teve um dia extra. Meu sogro me contou, muito orgulhoso, que já foi em todas as edições!

O evento desse ano reuniu uma média de 600 navios: navios da marinha, réplicas dos navios usados para passear por aí e roubar terras de índios, botes, caiaques, barcos de passear nos canais de Amsterdam e de ir pescar. Muitos tipos! Para não sobrar apenas para a imaginação:

O evento era muito interessante pelo porte e organização. Eram muitos navios, muita gente e não vimos nenhum tipo de problema. O que me intrigou muito mais do que os navios, no entanto, é o fato de os holandeses amarem tanto esse evento! Eu, particularmente, não gosto de navio nem se for pra fazer cruzeiro. Mas achei mesmo tudo legal (esclarecendo), porque minha versão madura 2.3 é muito aberta a cultura diferentes e quer muito ser culta. Ainda assim, tive que colocar minha cabeça para pensar e tentar entender todo esse amor. Eis as minhas suspeitas:

Vamos conquistar o mundo!

Em típicos dias holandeses, com muita chuva e vento, que resolvíamos brincar de jogos de tabuleiro em família, a história era sempre a mesma: jogos de conquistar o mundo! Claro que eles sempre ganhavam né, e eu sentia aquela sensação de dejavu – tadinhos dos sul-americanos! Mas ok, era divertido até!

É compreensível que criancinhas holandesas brinquem de jogos de corrida imperialista se levarmos em conta o fato de que era exatamente isso que os ancestrais delas faziam – na vida real. Lembra nas aulas de história da Companhia (Holandesa!) das Índias Ocidentais/Orientais? Pois bem, eles brincam de navegar pelo mundo há MUITO tempo! A Indonésia, África do Sul e o Suriname pertenciam a eles, por exemplo. Até no Brasil eles já vieram se meter! Salvador ficou sobre domínio holandês por um ano e Pernambuco por vinte e quatro. Rolava até um papo de Brasil holandês no nordeste – até eles serem expulsos daqui.

Como eles acabaram com um pedacinho de terra menor que Santa Catarina eu não sei! E eles também não gostam de lembrar, então acho muito legal fazer piada sobre o assunto ;). Mencionar que Nova Iorque já foi na verdade Nova Amsterdam, e foi trocada com os ingleses pelo Suriname também é super válido!

Os holandeses e  a água

Além das batalhas ao redor do mundo por terra, os holandeses sempre tiveram que lutar com a água em seu próprio território. Uma boa parte do país fica abaixo do nível do mar, o que acabou fazendo deles experts em resolver problemas hídricos. Os lindos canais de Amsterdam, com suas casas-barco fofíssimas, foram projetados como parte dessa estratégia de evitar que tudo ficasse embaixo d`água. Eles são tão bons nisso, que foram chamados para ajudar na recuperação de Nova Orleans depois da passagem do Katrina.

Ainda que esse complexo de conquistadores do mundo não se resuma ao povo holandês, acredito que ninguém mais tenha tido tanta história com água – e barcos, consequentemente. E parace mesmo haver toda uma cultura de barcos no país (ou quem sabe só em Amsterdam)! Hoje a Oma (vó em holandês) me contou que ela e a família dela moravam em um barco no norte da Holanda. Muita gente tem um barco para passear nos canais em Amsterdam nos tão esperados dias de verão. E os turistas adoram fazer o mesmo. Ah, e morar naqueles barquinhos no canal (como aquela menina da novela das 9 de muitos anos atrás) é  bem caro!

Eu não tenho certeza se meus argumentos são suficientes para explicar porque os holandeses amam barcos e eu não, mas nós certamente tivemos um ótimo dia em família! Fomos ver os barcos de perto e depois do alto de um prédio, terminando o dia com pizza e cerveja no centro de Amsterdam! Não dá pra reclamar, né!

Esqueça tudo o que você sabe sobre bicicletas

Oi, gente! Já me encontro em terras europeias! Depois de um voo bem cansativo e estressante (daria um post, mas só pensar me irrito) e um final de semana na casa da sogra na Holanda, viemos para o nosso “lar, doce lar” na segunda. Hoje eu vou começar a contar pra vocês das minhas impressões daqui, e a primeira delas não podia ser outra: as bicicletas!

Na verdade essa história de bicicleta já começou naquela vez que passei um tempo na Holanda. Felizmente, não andei muito de bicicleta lá. E não consegui entender porque as pessoas optam por esse meio de transporte em um país que tem um clima tão terrível – muito vento e chuva frequente. Ok, o país não tem morros, mas ainda assim.

Embora eu more na Bélgica, meu marido continua sendo holandês e junto com a mudança vieram duas bicicletas, claro. Suspeito agora que isso não seja só coisa de holandês, no entanto. Todo mundo anda de bicicleta aqui também! Tenho três hipóteses: 1) isso é coisa de falante de holandês, 2) moramos em uma cidade universitária, e esses são os anos mais pobres das nossas vidas, bicicleta é o de transporte mais barato, então voilá, 3) talvez isso seja coisa de europeus em geral?!

Eu não sei vocês, mas eu adorava bicicleta quando eu tinha uns.. 10 anos?! E eu dava a volta no quarteirão, andava na pracinha, ia à casa da minha amiga que ficava à 10min da minha. Era super divertido! Mas aqui não é bem assim, eu notei.

No nosso primeiro dia aqui fomos ao centro da cidade de bicicleta. E eu sei que o meu marido fofo exalava sinais de achar graça de mim, procurar paciência e se esforçar pra me manter viva. Aqui o negócio parece ser mais sério. O Sten falava de bicicleta como se fosse um carro: tem que dar sinal com a mão pra virar e diminuir a marcha quando estiver parando (?!?!). Ele sobe na bicicleta com ela já andando, fica se exibindo mandando mensagem no celular enquanto pelada e nunca parece que tá morrendo, tipo eu.  Um saco. E eu sei que essa gente adora reclamar dos turistas de bicicleta, que supostamente atrapalham o trânsito, tipo eu.

Pois bem, o Sten disse que eu sou um perigo de bicicleta! Como assim né?! Ok, eu sempre tive medo de atravessar, andando, ruas super movimentadas que não tivessem o semáforo de pedestres – mesmo em Tubarão. E eu nunca quis andar de bicicleta no Rio 1) porque eu tenho medo de morrer e 2) porque eu não gosto de bicicletas. Então tá, podemos concluir que eu não sou uma ciclista das mais espertas, mas onde que tinha autoescola de bicicleta que a minha mãe não quis me matricular, Jesus?!

Ontem a gente estava tomando uma cervejinha no centro e passou um guri quase voando, e ele estava de UNICICLO! Eles devem ter alguma uma matéria na escola, tipo Andar de Bicicleta III, só para pessoas de QI acima do normal. Sério, é o cúmulo! Também descobri que tem jeitos diferentes – e bicicletas diferentes – para meninos e para meninas subirem na bike. Uh?! E que as bicicletas são como tesouros de família, passados de pai para filho. A do Sten, por exemplo, era do vô dele. É um universo esquisito que ninguém me disse que existia.

Mas voltando ao meu drama pessoal, se levarmos em conta as evidências, eis os possíveis futuros cenários dessa minha saga:

  1. Vou morrer atropelada quando estiver andando de bicicleta um dia desses.
  2. Vou fazer alguém ser atropelado por causa de alguma coisa “de turista burra” que vou fazer.
  3. Um belga bravo vai brigar comigo e me bater por causa dessas coisas de “turista burra que só atrapalha o trânsito, blablabla”
  4. Vou ter que aceitar meu triste destino e dar sinal com a mão pra virar, blablabla.
  5. Vou ficar com pernas bonitas!

Em que opção vocês votam? Espero que qualquer uma delas venha acompanhada do numero 5. É o mínimo que eu mereço, afinal de contas!

Aposto que teremos mais capítulos sobre a minha novela com as bicicletas. Fiquem ligados!